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terça-feira, 25 de setembro de 2018

UM PROJETO FOTOGRÁFICO PARA APOIAR O TERCEIRO GÊNERO . OS HIJRAS

Chame-me de Heena: Hijra, O Terceiro Gênero

Um profundo relato, feito pela fotógrafa Sharhia Sharmin desde 2012, sobre um grupo único de pessoas – fora das noções ocidentais de gênero – que tentam encontrar seu lugar no mundo.


“Eu me sinto como uma sereia. Meu corpo me diz que sou um homem, mas minha alma me diz que sou uma mulher. Eu sou como uma flor, uma flor feita de papel. Eu sempre serei amado à distância, nunca serei tocado e não haverá nenhum perfume, pelo qual se apaixonar”, diz Heena, 51 anos, de Dhaka, Bangladesh, em 2012.

"Hijra" é um termo do sul da Ásia, que não tem correspondência exata na moderna taxonomia ocidental de gênero, designada como masculina ao nascimento, com identidade de gênero feminina e que, eventualmente, adota papéis femininos.




 Eles são, muitas vezes e grosseiramente, rotulados na literatura como hermafroditas, eunucos, transgêneros ou mulheres transexuais. Atualmente, usa-se um termo social mais adequado - o “Terceiro Gênero”. 

Transcendendo a definição biológica, os hijras são um fenômeno social, fazendo parte de um grupo minoritário, e têm um longo registro histórico no sul da Ásia. No entanto, sua aceitação social e as condições atuais de vida variam, significativamente, em países como Bangladesh, Índia e Paquistão. Talvez os Hijras de Bangladesh enfrentem a pior situação, o que obriga boa parte deles a deixar sua pátria e migrar para a Índia.

Embora tenham suas próprias origens familiares e sociais, os Hijras experimentam um verdadeiro sentimento de pertencimento, quando estão em seu próprio grupo - os Hijras. Esses grupos oferecem a eles o abrigo natural de uma família e o calor do relacionamento humano. Fora do grupo, são discriminados e desprezados em quase toda parte.




Tradicionalmente, esses indivíduos ganhavam a vida com base na crença cultural de que os Hijras tinham o poder de abençoar a casa das pessoas com prosperidade e fertilidade. Em virtude da história geográfica e cultural compartilhada com o subcontinente, essa crença hinduísta ganhou, aos poucos, espaço na entre os muçulmanos, que habitavam aquela terra. Os tempos mudaram e os Hijras perderam seu espaço privilegiado na sociedade. Atuamente ganham a vida andando pelas ruas pedindo dinheiro a lojistas, passageiros de ônibus e trens ou através da prostituição.

Eu, como quase todos que fazem parte do meu círculo social, cresci vendo os Hijras como pessoas “menores”, como sub-humanos - seus hábitos, modo de vida e até mesmo sua aparência, os definiam como “diferentes”, “desviados” , como se fossem o testemunho vivo de uma aberração biológica. Então, conheci Heena, que me mostrou como eu estava errado. Ela contou sobre sua vida, me fez parte de seu mundo e me ajudou a ver algo além da palavra “Hijra”. Ela me fez entender - ela e outros membros de sua comunidade, como mães, filhas, amigos e amantes - quem são de verdade.

No mundo de hoje, os hijras dificilmente têm a oportunidade de uma vida normal. Eles não têm escolas onde estudar, nenhum templo para orar, nenhum governo e organizações privadas, que queiram vê-los em sua lista de funcionários. Eles não têm acesso a sistemas legais e os provedores de serviços de saúde, não os recebem.

Eu comecei este projeto autofinanciado e em andamento, no início de julho de 2012. Meu trabalho conquistou os corações e a confiança de muitos Hijras, o que espero ser evidente em meu ensaio fotográfico. Para contar a história completa, o trabalho deve continuar.

Através do meu trabalho, espero dar voz aos “sem voz”. A fotografia sempre foi uma ferramenta extremamente eficaz ao desafiar o estigma social e ajudar a revelar uma realidade diferente para o mundo. Espero que meu trabalho ajude os Hijras a encontrar um espaço para respirar em uma sociedade claustrofóbica como a nossa e a encontrar novos amigos em seu mundo sem amigos.

Fotografias e texto de Shahria Sharmin

Tradução livre - Andreia Bueno
Setembro . 2018

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

NÃO DEIXE QUE A "CRISE" DESTRUA SUAS CHANCES - LEIA MINHA HISTÓRIA.





Devo minha vida à fotografia e à minha fé, mas agradeço a todos com quem aprendi algo nessa trajetória de quedas memoráveis, até chegar onde estou.

Meu nome é Andreia Bueno, filha única de um casal maravilhoso, já falecido. Com eles aprendi valores preciosos, a sonhar, realizar e persistir diante dos obstáculos. Minha paixão sempre foi fotografia, que aprendi com minha mãe. Cursei administração e design, sem deixar nunca de fotografar.

Por três vezes, abri e tentei manter meu próprio negócio, sem sucesso: cometi erros fatais de gestão. A última tentativa, em 2006 deixou consequências devastadoras: perdi casa, carro e me vi sozinha, sem recursos. Vivi um ano e quatro meses, numa casa simples, com aluguel pago por amigos, sem energia elétrica – o caso foi parar, inclusive, no jornal e na TV.
Essa é mais uma longa história, que pode ser comprovada por artigos publicados no Google.

No auge da crise, com 48 anos, contra todas as dificuldades, respirei e resgatei meus valores: iniciaria então, a empresa vitoriosa, que hoje administro: a Studio3 Escola de Fotografia e minha carreira de fotógrafa profissional.

Definido meu objetivo e o serviço que ofereceria, tracei o plano de negócio.
Decidi, que do pouco dinheiro que conseguia, uma parte seria para compra de iluminação de estúdio e outra, para internet. Com ela, faria pesquisas de mercado, contatos e divulgaria a escola.

Meu objetivo era uma escola diferenciada, que oferecesse certificação, com mensalidades acessíveis e novos métodos, onde os alunos aprendessem através de práticas em situações reais e de um programa completo, que abordasse desde técnicas, até empreendedorismo e gestão de carreira.
Passei dois anos refinando o projeto e preparando a abertura da escola.

No final de 2009, busquei o espaço para implantação da empresa, que já era formalizada.
Lembrei-me do Centro de Cultura, onde já havia trabalhado e fiz contato, apresentando a proposta - o ponto era excelente, a estrutura perfeita e eu teria a possibilidade de oferecer aos alunos, o que desejava.
Proposta aceita, firmamos contrato de parceria, definimos preços, horários e logística.
Segui, eu mesma, com a divulgação, captando alunos.

Comecei em 2010, com uma só sala, onde ministrava teoria e prática. Ofereci uma única modalidade de curso. Abri vagas para três turmas. Fiquei surpresa quando tivemos que abrir mais uma turma à noite, devido à demanda - foi a primeira vitória.



Foram tempos difíceis: saía de casa de ônibus às 7:00h, voltava à 00:00h e fazia todo o trabalho da Escola – quando chegava em casa, havia um único ponto de energia, cedido por uma vizinha e era com ele, que eu ligava o computador. Perdi inúmeros trabalhos, pois meu estúdio era em minha própria casa e eu não tinha energia para ligar os equipamentos - menos trabalho, menos dinheiro, mais dificuldades a serem superadas.

Persisti, oferecendo serviços, que compensassem as deficiências: implantei um ciclo de palestras gratuitas no centro de cultura, passeios fotográficos e comecei a produzir exposições em espaços culturais da cidade, com as fotos dos alunos, o que gerou ótima repercussão.

Consegui, que os alunos treinassem, fotografando apresentações da Cia de Dança Sesiminas, do Circo Sesi e desfiles de moda. Pude então, proporcionar a eles, experiências em situações reais, que é um de nossos grandes diferenciais.

Conquistando mercado, fui firmando parcerias com empresas que como a Escola, se beneficiavam das ações.
Em 2012, a escola já havia crescido e identifiquei a necessidade de contratar outro professor.
Decidi que daria preferência a ex-alunos, já formados e experientes, depois de um amplo treinamento em docência.

Hoje, a escola conta com 4 professores, sempre incentivados a melhorar sua capacitação.

O 7º andar do Centro de Cultura é todo nosso: temos boas salas e um estúdio bem equipado.

Atualmente, gerencio a escola, leciono e coordeno os professores: trabalhamos amistosamente, em equipe, prezando os mesmos valores e empenhados em nossa missão. Avaliamos resultados e conversamos muito, para que exponham suas ideias e soluções.

Sigo atenta às demandas dos alunos, fazendo pesquisas de satisfação, além de obter informações em conversas informais- eles são nosso melhor termômetro e temos um relacionamento muito próximo.

Mantenho o foco no mercado, observando o comportamento de nosso público nas redes sociais, nosso mais eficiente canal. Identificando demandas, transformo-as em novos cursos, ações e serviços.
A cada semestre, a escola cresce e recebe novos alunos.

Meus anos de estudo, minha garra, persistência e amadurecimento, mas principalmente, as lições aprendidas com os erros do passado, norteiam minha atuação como empresária. Deixei o imediatismo para trás e sigo, sistematicamente, mas com resiliência. Busco consultorias e permaneço me capacitando. Sinto-me segura e dona de um bom negócio. Venci o preconceito contra uma mulher de 50 anos, num universo dominado por homens - o do ensino fotografia. Construí minha escola, reestruturei minha vida e compartilhei com muitos, o caminho para o sucesso. Repito sempre, em sala de aula e em nossos canais na internet:
O “Não”, você já tem. Prepare-se, vá lá e faça. Se eu posso, vocês podem.

Terei sempre, muito a aprender e a escola, muito que crescer, mas me sinto feliz – tenho uma vida super tranquila e confortável. Implantamos uma nova forma de ensinar fotografia, comprometida com o resultado dos alunos. Continuo, junto com meus colaboradores, a abrir portas e oferecer ferramentas, para que outros vençam. Nossos alunos já formados retornam para especializações e nos indicam a outros. Muitos são premiados e referências em diversas áreas da fotografia.
Hoje, minhas – nossas – conquistas, são resultados de muito trabalho, principalmente, de ter mantido o foco, não ter deixado com que o medo e a desesperança me dominassem em minha pior fase de vida e de muita preparação, estudo e persistência.

Desejo o mesmo a vocês!
Com carinho,

Andreia Bueno
05 de Janeiro de 2016

domingo, 4 de outubro de 2015

O SIGNIFICADO DE UMA FOTOGRAFIA


Foto reproduzida da Revista Ecológico, abril 2014

Quantas coisas nos lembramos a partir de uma única fotografia registrada numa ocasião especial?
Quanta saudade sentimos de pessoas, tempos, lugares ao rever fotos guardadas?
Quanta informação absorvemos a partir de imagens feitas de coisas, lugares e acontecimentos que jamais poderíamos imaginar?

Quantos sentimentos, ideias e significados uma fotografia pode representar?

Todas essas possibilidades são consequências do “poder”, que a fotografia tem de reter um instante, numa imagem.
Imagem, que pode se tornar uma informação, um documento, um acervo ou uma referência para a nossa lembrança – Uma foto é, sem dúvida, um objeto de memória seja ela particular ou coletiva.

A escritora Susan Sontag no livro Sobre Fotografia (1977) fala sobre essa intensidade da fotografia:

“Cada fotografia é um momento privilegiado convertido num pequeno objeto que se pode conservar e olhar repetidamente. ”“... testemunha a inexorável dissolução do tempo, precisamente por selecionar e fixar um determinado momento. ”“...invenção que permite o registro do que vai desaparecendo."

Provavelmente, essa seja a razão da emotividade e da magia, que envolvem as fotografias, o desejo de alcançar ou ter uma realidade - que já passou ou fantasiada.
Mas todas essas questões estão ligadas à nossa própria experiência, conhecimento e forma de ver o mundo. Nenhuma emoção será provocada se não houver um contexto, semelhança, entusiasmo ou história.

Isso não quer dizer que toda fotografia seja necessariamente um retrato fiel da realidade. Muitos significados podem ser construídos a partir de uma simples opção ou intenção do fotógrafo.

Essa fotografia de Carlos Drummond por exemplo, que serviu de modelo para a escultura instalada em Copacabana, conta um pouco da história do poeta... será?

Foto: Rogério Reis 1982 

Carlos Drummond sempre me comoveu e qualquer imagem em que ele aparece, me chama atenção, sinto uma certa familiaridade no seu semblante e é claro, adoro sua poesia.
Mas enfim, pesquisando sobre a foto, que deu origem à famosa escultura, tive uma grande surpresa e um ótimo exemplo para refletir sobre o poder de uma imagem.

A história, que a maioria das pessoas conhece sobre a escultura, é a de que Drummond, sempre frequentava aquele banco, onde contemplava Copacabana e escrevia poesias... Essa é a história contada pela fotografia inspiradora da obra, mas na verdade, não foi bem assim.

A fotografia de Rogério Reis serviu de modelo para a escultura e deu vida a uma história um pouco diferente da realidade, que na sua própria opinião, não representava bem a intimidade do poeta. O próprio fotógrafo confirmou “foi uma foto construída”. 

Segundo ele, Drummond morava em Copacabana, mas sempre caminhava na direção do Leblon. Como ele precisava de uma foto especial para a revista Veja, pediu ao poeta para fotografar ali mesmo. Drummond concordou e assim foi criada uma nova “realidade”, um pouco diferente dos costumes do poeta, mas que se tornou uma imagem emblemática na história da relação de Drummond com o Rio de Janeiro.


Por diversas razões, muitas vezes, o fotógrafo precisa criar um ambiente para fotografar e em alguns casos, é essa criação, que dá valor histórico à foto.
Mas, isso também representa um risco, claro.
Nesse caso a fotografia de Rogério Reis, que não retratava a realidade, assumiu um significado muito maior do que a intenção, no momento da foto.

Por Beth Faustina, Outubro de 2015
Studio3 Escola de Fotografia